sábado, 15 de junho de 2013

A Primeira Página do Diário de um Mendigo


   Hummm ___como devo começar?___ questiona o mendigo com uma brochura de páginas em branco nas mãos.
     Num gesto brusco tira o lápis de detrás de uma orelha; na outra está o cigarro de rolo. Recosta na parede de tijolos de maneira sentir-se mais confortável, curva os joelhos e observa por um momento a calça imunda e rasgada; abre a brochura e assina na primeira folha  começando a escrevinhar na segunda página.
___Querido diário; me desculpe a intimidade de imediato, mas acho que assim deverá ser depois deste primeiro desabafo. A vida por aqui não tem sido nada boa; mas isso não é novidade sobre o estado de alguém que vive só e indigentemente ao relento. Suas páginas me dão uma confiança amigável para relatar o que vai no âmago do meu ser, na profundidade do vácuo que alarga cada vez mais no meu coração. A esperança não me visita mais e não conto mais os dias; simplesmente sei que eles passam porque vejo o anoitecer e o amanhecer. Suas bondosas folhas me parecem amareladas quando sei que são alvas e novamente me desculpo se não consigo obedecer a precisão das suas linhas que ironicamente parecem embaralhar-se diante do risco do meu lápis trêmulo.
   Pessoas chamadas de cidadãos vão e voltam mas nunca me vêem! Bem;é verdade que vez ou outra alguém de cabeça baixa me lança uma moeda;mas nunca me vêem de fato. Eu gostaria imensamente de saber se realmente sou invisível___ como o cara daquele filme___mas quando questionei não me responderam e eu tive certeza que de que já há tempos deixei de existir para eles.
      Hoje a comida foi farta, migalhas de pão e mistureba de arroz ,um bocado de espinhas de peixe que encontrei no fundo de uma sacola. Amanhã é outro dia; eu poderia lhe dizer que irá ser diferente, sei que não. É nojento relatar,mas agora titubeio entre uma palavra e outra; pois as larvas entre os meus dedos dos pés provocam ferroadas de dor a cada dois segundos. Minha coluna incomoda, sinto a exposição dos meus ossos, o meu olhar está a cada dia mais fundo e longínquo; bem  distante  do que um dia foi.___ Algo atraente em minha face.
   Acredite já fui uma espécie de galã um dia,em um passado recente.
  Já frequentei a chamada "alta sociedade". Dentro desta classificação eu estou na baixa hoje.Baixíssima, inexistente, um ser não identificado;o risco vermelho que exclui o que não era para estar no mapa.
___Este sou EU!
      Outro dia eu me permiti um pouco de aventura... ___Quer saber como foi?
___O frio era de cortar os calcanhares naquela noite ;deitado na esteira sob a marquise eu puxei o cobertor sobre a cabeça, me encolhi o máximo que pude até a posição fetal e tentei me concentrar para dormir, os olhos já estavam ficando pesados, a consciência já ia se esvaindo quando; algo gelado penetrou pelo cobertor encharcando minha camisa e escorrendo pela minhas costelas. Quase instantaneamente os pés esquentaram como se eu os tivesse metidos em um braseiro .
     Algo me alertou.
     Levantei-me deixando o cobertor cair. Só então percebi que este havia se transformado numa imensa labareda flamejante. Olhei mais ao longe e ainda pude ver o sorriso feliz e irônico dos meninos da chamada "alta sociedade" ,fugindo covardemente com a prova do crime em mãos; uma garrafa de álcool. Se aquilo era a chamada "alta sociedade" eu queria estar continuamente abaixo dela.

*Dani Cristina
Obrigada por estar lendo.
Sucesso com as palavras e até mais.
Um Abraço!

Um comentário:

Mafalda Sofia Antunes disse...

Adorei o texto!! Mil beijinhos!!